30 de setembro de 2026
Não é só para você.
— dias desde 14 de março de 2012
Mi,
Esse ano o aniversário é seu, mas a carta é “sabor para você”. Essa carta é direcionada para as nossas filhas, para que elas tenham registro de quem é a mãe delas e possam, minimamente, conhecê-la através dos meus olhos.
Então alce voo e seja a mosquinha que vai ler isso enquanto sobrevoa os cabelos das nossas babies, porque é sobre você, mas não é para você...
Gab e Rafa,
Eu sei que vocês amam a Mi, e tenho certeza de que o fazem pelos méritos dela mesma; mas será que vocês realmente a conhecem em toda a extensão que eu a conheço? Em todos os pormenores e detalhes que eu tive o prazer e o privilégio de ver ela demonstrar vez sim, vez também? Vamos descobrir...
Para a Gabriela 27 anos
Gab, vou começar com você porque você veio primeiro. Você sabia que em 2014, quando a gente planejou a viagem para a Disney, ela era para ser a nossa lua de mel?
Deixe-me começar a desmistificar tudo aqui pelo “a gente”, porque aqui ele não passa de um coletivo financeiro; nós aqui é “nós” porque “a gente” rachou a conta. Porém, escolher o destino, executar em cima e planejar foi, na verdade, tudo ideia da Mi — seria desonesto da minha parte clamar qualquer mérito, além do financeiro, nessa viagem.
Se você lembrar bem e puxar pela memória — afinal, já contamos essa história algumas vezes —, nós tentamos te levar conosco para essa viagem. Sim, é verdade: a Mi fez questão de querer te levar para a nossa lua de mel.
Ela me fez falar com a sua mãe (com quem eu não tinha a menor vontade de falar naquela época) só para garantir que haveria anuência para que você pudesse ir; na real, ela queria ela mesma falar, mas achou que a sua mãe pudesse negar o pedido se ele viesse dela (sei lá, praticar alguma forma de sanção), então fez das tripas coração para me convencer a ser fachada para o pedido.
A gente já sabe o desfecho desse episódio, e não é para provocar mal-estar em você que estou escrevendo; na verdade, é para criar palco para uma pergunta (está mais abaixo, continue lendo).
Deixe-me te dar perspectiva do que foi a viagem no momento em que ela foi para a gente. Nessa época, Mi e eu juntos estávamos começando a vida e, como todo casal, tínhamos contraído um belo mar de dívidas; para efeito ilustrativo, vamos dizer que o salário combinado dos dois fosse R$ X por mês.
Nós tínhamos feito financiamento para comprar a casa de Osasco por 13X, tínhamos gastado 3X com reforma, outros 1,5X com o casamento e mais a lua de mel, que custaria 1,5X — esqueça os custos mensais; estou falando apenas de dívida adquirida ou a adquirir. Por que isso é importante?
Porque muitas pessoas sob a mesma perspectiva financeira tentariam conter gastos: uma viagem a dois custa menos que uma viagem a três. Mas essa não é a sua mãe Mi, não. Desde o planejamento, o discurso dela era focado: “Dri, a gente tem que levar ela, ela vai aproveitar muito; é o aniversário de 15 anos dela! Vai ser inesquecível. Ela vai lembrar dessa viagem que você proporcionou a ela para sempre.” Repare no sujeito a quem ela atribui, altruistamente, o proporcionar a experiência: ela queria que você ficasse grata a mim pela viagem! Arquiteta social ou só excesso de amor? Na real, faz diferença? Ela só queria nos aproximar, nos ver como família.
Mas, enfim, para que essa história, né? Bom, tudo para despertar uma única curiosidade em você; uma que talvez jamais tenha despontado espontaneamente:
Se essa fosse a sua história; e você e o seu parceiro estivessem com quase vinte vezes o R$ X mensal de salário de ambos em dívidas; e ele tivesse uma enteada, você lutaria para tentar levá-la com vocês em sua LUA DE MEL?
Talvez sim — eu acredito na sua bondade e generosidade, assim como testemunho a dela —, mas não tenho certeza se outras pessoas na mesma condição fariam a mesma coisa. Pelo sim, pelo não, de uma coisa eu estou certo: certamente ninguém com quem eu tenha me envolvido antes dela faria isso.
E eu sei que você já sabe que a sua mãe Mi é assim. Em 2020 nós ouvimos da sua boca, mesmo você não tendo ido com a gente 6 anos antes, que ela foi uma mãe para você. Em suas próprias palavras:
“Quero dizer que você só não me deu leite, porque mãe, você foi de todas as formas”
Ouvir no vídeo de 2020
Essa sua declaração é a prova que dispensa todas as outras, a mais linda que vocês duas já entregaram uma à outra:
De um lado, a filha (não enteada) recebendo amor de mãe, verdadeiro, real, sem distinção, só carinho (de graça) dedicado à sua mera existência. De outro, a mãe (não madrasta) recebendo uma demonstração de amor que qualquer mãe espera de uma filha.
Te amo, Gab!
Para a Rafaela 9 anos hoje — para reler mais tarde
Rafa, agora só sobrou você debaixo do holofote.
Eu vou escrever para você hoje, mas não sei quanto do que escrevo vai de fato ser absorvido hoje; portanto, volte aqui de tempos em tempos e releia a carta do papai. Cada vez você vai ter uma visão mais completa sobre quem é a sua mãe. Ou deixe para reler de novo quando estiver próxima da idade que a mana tem hoje — vai ser uma data especial para nós também, explico melhor abaixo.
Rafa, lembra de uma ocasião em que a mamãe estava jogando Dixit com vocês na casa da Juju? Naquela partida houve alguns episódios em que você pôde testemunhar, talvez sem perceber, a super-heroína em que se transforma sua mãe quando ela detecta que há alguém “em perigo”. Ok, eu sei que ela não colocou literalmente nenhuma capa e foi salvar alguém, mas essa é uma metáfora que busca chamar a sua atenção para a diferença entre a mamãe padrão (aquela em voo de cruzeiro, que a gente vê distraída, olhando o celular) e aquela superfocada, tentando dar um exemplo ou ensinar algo — quando ela vê a oportunidade, ela de fato se comporta como uma super-heroína, no sentido de não protelar e sair imediatamente em busca de quem precisa.
Enfim, naquele dia você e a Juju, em momentos diferentes, azedaram por não estarem em primeiro ou por terem perdido a partida anterior e estarem novamente atrás do bando de coelhinhos. Não que eu fosse, na sua idade, a suprassumidade da paz e não fizesse a mesma coisa — para ser sincero, talvez eu fizesse pior, mas enfim...
Para cada uma de vocês, e em cada um dos episódios, a mamãe se transformou e começou a lembrar vocês das outras ocasiões em que jogamos Dixit no sítio ou em casa, em que ela não ganhava ou estava em último e, nem por isso, deixava de se divertir.
Porém, nenhuma de vocês aceitou o argumento e continuou insistindo no mesmo ponto, como que querendo dizer que “a menos que eu ganhe, não tem graça”. Até a Helo entrou para dissuadir vocês e tentar desemaranhar o novelo de emoções negativas que tomou conta de vocês duas.
Mas tudo o que a mamãe disse naquele dia, naquela mesa, naquele jogo, continua a ser a mais pura verdade. Talvez o seu estado de espírito, ou o momento emocionalmente carregado, tenha te atrapalhado a receber ou a decodificar a mensagem.
A mamãe só tem olhos para o bem, Rafa. Eu sei que, vindo de mim, soa como uma afirmação enviesada, mas eu te garanto que não há lado negativo na palavra viés. Viés é sinônimo de tendência e, ao longo de 14 anos, de fato a sua mãe teve muito mais tendência para o otimismo e a positividade do que para o pessimismo e a negatividade — esse se parece mais com o papai — e, portanto, enviesada ou não, o que eu te escrevo é resultado de 14 anos de observação empírica, não uma fofoca. A sua mãe se alimenta da alegria dos outros, e não do resultado do placar: quanto mais gente feliz por perto, mais realizada ela estará. Esse otimismo é poeticamente bonito — enquanto quem joga deposita seu humor no resultado da partida (como vocês fizeram), ela o deposita no bem-estar coletivo.
Agora, imagine se você pudesse aprender a ser assim... Ser capaz de ficar feliz se as pessoas ao seu redor estiverem felizes. Imagine como seria se, cada vez que você ouvisse uma reclamação — meu suco está ruim, minha cadeira está desconfortável, estou entediada, não me deixaram falar, pegaram mais batata do que eu, não quero ouvir essa música —, você, na verdade, ouvisse “tenho uma oportunidade para ficar feliz” e fosse feliz de fato. Sua mãe não ouve a mesma coisa que a maior parte das pessoas ouve: um “meu suco está ruim” não é uma reclamação para ela, é só uma oportunidade para ajudar alguém a se sentir mais à vontade, mais confortável, mais alegre. E se ela conseguir elevar o humor daquela pessoa ou daquele grupo, aí sim ela vai ficar feliz...
O papai entende a mecânica de como ela é, entende o conceito por trás da motivação dela, mas o papai falha feio na execução. Porque eu mesmo aprendi com ela que ser assim era uma possibilidade viável, mas, como aprendi bem mais tarde na vida (minhas aulas começaram quando eu tinha 33 anos), ainda é difícil para mim mudar alguns velhos hábitos e agir como ela. Porém, não é esse o seu caso: sua mãe te ensina desde que você nasceu, e ela não se cansa de te ensinar. Aproveite as aulas!
Por isso é que o papai te provoca vez ou outra com a pergunta: “Você quer ser igual ao papai ou igual à mamãe?”
Te amo, Rafa!
Para as duas
Cada uma de vocês ganhou uma história, uma passagem, uma ocasião que mostra de forma diferente o mesmo lado da Mi.
A Disney e o Dixit são só duas fachadas do mesmo comportamento, do mesmo desejo, da mesma vocação: gerar felicidade. Eu testemunhei a Mi passar por poucas e boas, principalmente com dois tios meus, no começo do nosso relacionamento. Trocavam o nome dela pelo de uma ex, intencionalmente, e a comparavam com a mesma ex só para causar mal-estar. Até eu, em alguns episódios, fiquei com vontade de mandar um deles para aquele lugar.
E a Mi não se deixava abalar: eu testemunhei ela servir salgadinho a eles em mais de uma festa e até buscar cerveja para eles ela foi, mesmo com toda a torta de climão que eles faziam. E o tempo passou, e eu vi despontar nesses mesmos personagens sentimentos de arrependimento ou até admiração. Não reconheceram isso abertamente para mim, mas falaram para minha mãe, sabendo que ela comentaria comigo — na prática, a consciência pesou a ponto de quererem mandar o recado.
E eu sei que a Mi não paparicou os dois esperando essa mudança; viesse ela ou não, ela continuaria a tratá-los da mesma forma até hoje. Na falha alheia, ela viu uma oportunidade de trazer-lhes alegria, sabendo que, se conseguisse, ela também seria mais alegre com eles. É genuinamente ter prazer no prazer do outro.
Se há um só superpoder que eu gostaria que vocês aprendessem, é esse: apaixonem-se pela oportunidade de fazer alguém feliz, de fazer a diferença para alguém, de transformar um sentimento negativo em alegria.
27 de agosto de 2041
Mi, daqui a quinze anos
Quem encerra sou eu, mas do futuro; mais precisamente, o seu marido em 27 de agosto de 2041.
Hoje é um dia especial, meu amor: hoje você completa ao meu lado 10.758 dias, exatamente o mesmo volume de dias que você passou desde que nasceu até um dia antes de nos conhecermos. De hoje em diante, você terá passado mais da metade da sua vida comigo! Ou seja, terá passado mais dias comigo do que sem mim, o que para mim já seria motivo suficiente para celebrarmos.
Em maio, enquanto comemorávamos as nossas Bodas de Hematita, a gente enfim levou a sério e marcou a nossa renovação de votos para 2043! Eita que 30 anos de casados merece de fato uma bagunça; até bolo eu acho que vou comer dessa vez. Tony já disse que casa a gente, e a Gy disse que entra tocando violino; resta saber se Gab, Rafa e a adolescente da família Barros animam o povo cantando — vamos torcer (e continuar pressionando).
Por falar nas meninas: a Gab fez aniversário de 42 anos há um mês e meio, e o mais novo dela, apesar de ser um terrorzinho, te adora — é vó Mi para cá, vó Mi para lá; onde quer que você esteja, lá estará a figurinha... Até que enfim um menino na família, meu Deus!
Rafinha, no auge dos seus 24 anos, mesmo elétrica como é, parou ontem para reler a cartinha que eu mandei para ela no seu aniversário de 44 anos. Depois me mandou mensagem dizendo que nós somos lindos juntos, mas não me respondeu se vai cantar na nossa renovação de votos. Ai, ai... ela está certa: nós somos lindos há 29 anos juntos! Meu Deus, você merecia uma medalha por me aguentar tanto tempo...
Só que nada disso aconteceu ainda, Lindula: hoje ainda é 30 de setembro de 2026, e tudo o que você leu nos parágrafos anteriores representa, na verdade, a minha pretensão, o meu desejo ou, melhor, a nossa história projetada segundo as regras da minha mente — você só recebeu um convite para espiar um pouquinho os bastidores.
O que eu posso te prometer com data marcada é bem mais perto: no dia 5 de dezembro deste ano — sim, um dia depois do meu aniversário — completaremos 5.379 dias juntos, exatamente metade da quantidade de dias que você já tinha vivido sem mim; ou seja, daqui a três meses você terá vivido dois dias “sem migo” para cada um comigo.
Hoje é dia de eu te desejar um feliz aniversário.
Parabéns pelos 44 anos, pelas conquistas e vitórias, e obrigado pela maravilhosa companhia.
— dias desde 14 de março de 2012
Te amo,
Dri.